sexta-feira, novembro 04, 2005

por isso guardo com carinho os ditos dos meus pais, do "quando deus fecha uma porta abre uma janela" ao "mais vale filho da puta que coitadinho"

"Todas as línguas e literaturas estão cheias de observações gerais sobre a vida, tanto quanto ao que ela é, como à forma de nela nos conduzirmos; observações que todos conhecem, que todos repetem ou escutam com aquiescência, que são consideradas truísmos, mas cujo significado, porém, só é verdadeiramente apreendido pela maior parte das pessoas quandoa experiência, em geral do tipo doloroso, faz delas uma realidade.
Quantas vezes, quando sobre a influência de alguma infelicidade ou decepção imprevistas, uma pessoa se lembra de um provérbio ou adágio popular que lhe tem sido familiar toda a vida, cujo significado, se ela alguma vez o tivesse sentido como agora, a teria salvo da calamidade.
Existem, na realidade, razões para este facto, para além da ausência da discussão; existem muitas verdades cujo significado total não pode ser compreendido enquanto a experiência pessoal não lhes tiver atribuído sentido.
Mas o significado destas verdades teria sido melhor compreendido, e o que foi compreendido teria ficado mais profundamente gravado no espírito, se o homem estivesse habituado a ouvir os argumentos pró e contra de quem, de facto, os compreendia.
A tendência fatal da humanidade para deixar de pensar numa coisa quando a mesma já não oferece dúvidas é a causa de metade dos seus erros. Um autor contemporâneo referiu-se acertadamente à "sonolência profunda de uma opinião decidida"."

em "sobre a liberdade" de John Stuart Mill


(recuperando um post antigo...
"Toutes choses sont dites déjà ; mais comme personne n'écoute, il faut toujours recommencer." (André Gide))

18 Comments:

Blogger ana vicente said...

As palavras só interessam se lhes dermos sentido.
De outro modo, são coisas, são só coisas do mundo, para usar e deitar fora.

O que é certo na cabeça nem sempre é no coração.

(mas continua-se a falar)

novembro 04, 2005  
Blogger ana vicente said...

Para completar o meu comment, acrescento algo mais filosófico à minha primeira perspectiva quase psicoterapêutica.

O que o John Stuart Mill sabe, assim como todos os filósofos, é que o conhecimento só vale alguma coisa quando é apreendido. O conhecimento existencial, banalizado em frases feitas, provérbios, etc. e tal, não é real se não for sentido "para mim" (conceito kierkegaardiano). As frases feitas são muitas vezes usadas sem qualquer interiorização real. Umas vezes, como qualquer conhecimento, podem ser verdade outras não.

Nesse sentido, o Sócrates deu-lhes com a ironia. Porquê? Porque não adiantava nada explicar-lhes. Eles tinham de chegar lá por eles.


De notar que este comment é uma verborreia fenomenal, postado exclusivamente para provar pela forma que todas as palavras são insuficientes e inúteis quando carecem de sentido.

novembro 04, 2005  
Blogger ana said...

gosto de verborreia, apesar de toda esta crítica às palavras pouco sentidas... há algumas fuga de informação do coração para cabeça (acho que na terapia eles tb acreditam nisso, por isso nos põe a falar que nem tontos).

gostei da frase "o sócrates deu-lhes com a ironia". engraçado é que o John Stuart Mill tb falou dele nesse capítulo, dessa forma.

precisamos de socrates que nos libertem do excesso de informação. candidatos?

novembro 04, 2005  
Anonymous Anónimo said...

auto proponho-me, gosto da ironia - mas não do cinismo. Mas ao vivo é melhor, e mais espontâneo, adio para outras alturas! ;o)

novembro 04, 2005  
Anonymous Anónimo said...

p.s. o filho da puta é um coitadinho qto mais não seja por ter essa consciência, só que anda convencido - ou a tentar convencer os outros - que não é...
prefiro as janelas, clarabóias, portas, portões, etc...

novembro 04, 2005  
Blogger ana said...

ui doris, metáforas de janelas? ai, não percebi!

eu acho mais que o coitadinho tb é um filho da puta, subtil, não assumido...

novembro 04, 2005  
Blogger ana said...

pedro, ter-te por perto é garantia de elevado estilo oratório

ainda tá pra provar essa de que cada frase tem o seu contrário, de qq forma gosto de algumas partes da sabedoria popular

(concordo, puta que pariu o excesso de peso dado à coerência)

novembro 04, 2005  
Blogger ana vicente said...

Lembrei-me ainda do Wittgenstein (o único filósofo que me inspira um grito do género maneeeela, mas impronunciável sem ser wittwittwitt - vi-te vi-te vi-te).

O homem era mestre dos aforismos. E foi a partir dele que as coisas se tornaram mais difíceis de dizer. No entanto, por causa dele, surgiram todas as merdas de linguística e teorias de interpretação insuportáveis.

Dele, importa guardar a frase do final do Tratactus... De memória: daquilo que não se pode falar, deve manter-se o silêncio. (em casa confirmo)

O mais interessante é que tudo no livro indicava que o mais importante era exactamente isso - tudo aquilo que não se pode falar é que é realmente importante.

Apeteceu-me recuperar o teu cesariny, nós e as palavras.

novembro 04, 2005  
Blogger ana said...

hum... parecem-me em contradição. "deve-se manter o silêncio" vs "entre nós e as palavras o nosso dever de falar"

não se pode falar ou não se consegue falar?

não se deve pq? des-sacraliza? fica aquem e mais vale o silêncio?

não se consegue pq?
que "fé" temos na palavras e no seu poder para exprimir o que é realmente importante?

novembro 04, 2005  
Anonymous Anónimo said...

ana: as metáforas vêm das frases dos teus pais que tu citaste, não do meu comentário, pá!
e bom, vamos ter de definir coitadinho - se é kem é realmente ou se é kem acha k é - e se por definição toda a gente é filha da puta ou não...

novembro 04, 2005  
Blogger ana said...

ihih, doris, desculpa, já estava bem no meio da sala, esqueci-me das janelas

somos todos tudo, coitadinhos e filhos da puta, e isso é que é fixe!

novembro 04, 2005  
Blogger ana vicente said...

Isto tem tudo a ver com a questão da apreensão dos significados.

A questão não é não ouvirmos o que está dito, como diz o André Gide (espero que o meu pobre francês não me traia), o problema é mesmo não dizermos. Ouvir não chega, dizer às vezes não é suficiente. É preciso saber, é só isso.

Lembrei-me do Cesariny porque o poema acaba sem palavras, ou assim me lembro dele.

E sobre contradições o witt tb fala. A questão é mesmo essa: a lógica não nos chega.

(espero que os meus comments neste post sejam sempre lidos como verborreia, em estilo pescadinha de rabo na boca, academicamente falando)

isso da porta se fechar e uma janela se abrir não será corrente de ar?

novembro 04, 2005  
Blogger ana said...

"a lógica não nos chega" parece-me uma boa "conclusão"

(a tua verborreia é sp bem vinda e lida com a melhor das intenções em formato de pescadinha-académica)

(sim, acho que sim, q tem a ver com correntes de ar, mas pra quem acredita em deus, mm as correntes de ar seguem uma lógica providencial divina)

novembro 04, 2005  
Blogger anarresti said...

A genialidade de um provérbio não está no "conselho transmitido" mas na capacidade de sintetizar eficaz e ojectivamente uma experiência que será comum, muito provavelmente, a todas as pessoas que partilham o conhecimento desse provérbio. Essa propriedade torna o provérbio um factor de coesão de grupo, um elemento cultural importante da comunidade, torna-o parte do património do orgulho, da estrutura íntima, participante nos rituais de passagem de conhecimentos de uma geração para as mais novas. E isso funciona tanto melhor quanto mais objectivo e visualisável for o provérbio. Quanto mais reportável a uma experiência global, da vida quotidiana. É indiferente se o tal "conselho" é bom ou praticável. O que faz a diferença é se o dito popular se reporta a uma experiência com a qual eu me identifico imediatamente, assim que o ouço. Um abraço, nuno. P.S. O mais terrível que já ouvi: "Quem dá o que tem antes que morra merece uma cachaporra"

novembro 04, 2005  
Anonymous Anónimo said...

as vossas verborreias hoje, caras Anas, tão de dizer: é k é mm isso, catano!

novembro 04, 2005  
Blogger ana vicente said...

gostava de conhecer essa lógica providencial divina. Mesmo que não pudesse dizer nada sobre ela. gostava mesmo.

(muito obrigada, doris. pela parte que me toca no ping-pong pescadinha de rabo na boca)

novembro 04, 2005  
Blogger ana said...

a parte das correntes de ar podes estudar em livros sobre física da atmosfera... :-b

o resto... bom, eu tb gostava de perceber a lógica de outras coisas.

tv seja um maroto esse deus, com lógicas que variam só pra nos confundir!

novembro 04, 2005  
Blogger ana vicente said...

maroto ou filho da puta (peço desculpa pelo sacrilégio)

novembro 04, 2005  

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